Se hoje o Carnaval de Vitória ostenta ensaios técnicos lotados, feijoadas organizadas e uma cobertura midiática profissional, muito se deve a um marco divisório que completa duas décadas de influência: o Botequim do Ferreira. Mais do que uma festa, o projeto foi a vitrine que faltava para que as escolas de samba capixabas saíssem dos barracões e ocupassem os espaços mais nobres da sociedade.
O ano era 2004. O cenário do samba em Vitória ainda buscava uma maior profissionalização na divulgação. Foi então que Ferreira Neto, jornalista, colunista social e a voz oficial das transmissões dos desfiles por mais de 16 anos, decidiu usar seu trânsito livre entre o morro e o asfalto para criar algo inédito.
Ferreira percebeu um vácuo de informação nos meses que antecediam a folia. O Botequim surgiu para preencher essa lacuna, centralizando a elite do samba em um evento que era, ao mesmo tempo, um show presencial e um produto de comunicação híbrido, transmitido com força total via rádio e televisão.
TERMÔMETRO
Entre os meses de janeiro e fevereiro, o Botequim do Ferreira tornava-se a contagem regressiva oficial para o Carnaval de Vitória. O evento girava por locais icônicos que ficaram marcados na memória do folião, como o Clube Álvares Cabral, Clube de Pesca e a Ilha da Fumaça. Ali, acontecia o exame final. Se o samba-enredo pegasse no Botequim, com o público cantando em coro sob o comando dos intérpretes e o ritmo das baterias, a escola já entrava na avenida como favorita ao título.
O Botequim quebrou barreiras sociais. Ao redor de uma mesa de feijoada, o prato principal que se tornou selo de qualidade do evento, sentavam-se políticos, artistas e ritmistas. Ferreira Neto, com sua elegância característica, atuava como o grande mediador do Carnaval.
RECONHECIMENTO E LEGADO
O impacto de Ferreira Neto foi tão profundo que, em 2014, dez anos após o início do projeto, a escola de samba Chegou o que Faltava, rendeu-lhe a maior das homenagens. Com o enredo “Quem Te Viu, Quem Te Vê – Ferreira Neto Hoje A Festa É Para Você”, o cronista tornou-se personagem no Sambão do Povo, sendo celebrado como o maior “Relações Públicas” que o samba capixaba já teve.
O DNA do Botequim do Ferreira está presente em cada ensaio e feijoada que vemos hoje. Ele provou que o samba era um produto comercialmente viável e culturalmente rico, digno de grandes produções e de respeito profissional. Para nós, do Viva Samba, relembrar o Botequim é reverenciar a história de um homem que não apenas narrou o Carnaval de Vitória, mas ajudou a construir a grandeza que ele possui hoje.
Confira fotos da última edição do Botequim do Ferreira, realizada em janeiro de 2025:






Discussion about this post