Houve uma perceptível queda de qualidade nos desfiles em 2016. Isso era um fato já aguardado, em razão das dificuldades financeiras das agremiações (bradadas aos quatro ventos). Mas esse ano algumas escolas apresentaram um agravante... o desleixo. Uma falta de respeito ao espectador, ao carnaval capixaba e principalmente, ao seu pavilhão e a comunidade que ela representa. Amigos, temos que saber se as escolas de samba do carnaval capixaba são profissionais ou amadoras. Estamos sendo transmitidos para todo o Brasil, e quem acompanha pela internet as informações de outros estados viu... viramos “chacota nacional”.
O primeiro grande agravante foram as arquibancadas vazias na sexta-feira. Como assim? Por que estavam tão vazias em um dia em que desfilam a Novo Império, Andaraí, Imperatriz do Forte, duas escolas da Serra, São Torquato e Chegou o que Faltava. A Liga das Escolas de Samba tem que rever isso. Quem sabe colocando um valor mais acessível para os desfiles da sexta, e o pior, tem escola no Grupo de Acesso que há anos prova que não tem capacidade de exibir um desfile no mínimo apresentável.
No desfile do Grupo Especial, para felicidade de todos que amam o carnaval capixaba, voltamos a ver as arquibancadas lotadas. E um bom número de espectadores para assistir a Império de Fátima, última agremiação a desfilar na categoria de escola convidada, e que se apresentou dignamente (lembrando que sem nenhuma verba pública).
Mas infelizmente o amadorismo de algumas agremiações decepcionaram o público do Sambão do Povo e foi transmitido para todo o Brasil. A Barreiros apresentou um desfile vexatório, algo que já aconteceu em outras ocasiões. Definitivamente não é uma escola para o Grupo Especial, todos sabiam disso, e o maior castigo para quem a colocou lá foi a sua apresentação, que expôs para todo o Brasil o “nível” do carnaval capixaba. Mesmo nós sabendo que era uma exceção... para o Brasil virou uma regra.
Duas das primeiras escolas não apresentaram comissão de frente, como assim? Um dos mais importantes quesitos, simplesmente a apresentação da escola. Sei que a comissão de frente do Pega no Samba chegou a tempo de desfilar (após 33 minutos), mas amigos... para quem estava vendo pela TV o carnaval capixaba, duas escolas não apresentarem comissão de frente demonstra que o nosso carnaval é no mínimo amador. Apesar das outras agremiações do Grupo Especial apresentarem grandes desfiles: Jucutuquara, MUG, Piedade, Boa Vista e até mesmo a Pega no Samba, fiquei alarmado com o início do desfile da Boa Vista. Como que uma escola do nível da Boa Vista, com uma diretoria tão séria e experiente que possui, com um carnavalesco do nível de Petterson Alves, apresenta uma águia com nítidos problemas de acabamento (isso é o mínimo que posso dizer), e um elemento alegórico da comissão de frente totalmente mal-acabado. Gente era a Boa Vista, uma das favoritas ao título. E mesmo com o grande desfile que apresentou, ainda ficou na memória de todos aquele início que não refletia o restante do desfile.
Agora vamos ao que interessa, a análise dos desfiles das escolas do Grupo Especial. Lembro que minhas observações foram baseadas no que vi durante as apresentações no primeiro módulo de julgadores. E deixo meus parabéns a todas as agremiações que respeitaram o seu público, sua história e sua comunidade, proporcionando para todos os foliões no Sambão do Povo e expectadores de todo o Brasil um grande carnaval!
Unidos de Barreiros
Enredo: Um sonho, de um sonho do poeta. É Martinho lá da Vila
Que vexame a Barreiros! A agremiação que nem deveria estar no Grupo Especial, não só envergonhou o carnaval capixaba para todo o Brasil, como também seus componentes, sua comunidade e principalmente sua história. Para justificar sua demora em entrar na avenida, a escola alegou que não sabia que o horário do desfile era às 21 horas, quando “o mundo todo” sabia. E só realmente entrou no Sambão do Povo após 30 minutos do tempo regulamentar já corrido, e ainda assim, conseguiu encerrar seu desfile dentro do tempo estipulado. Para minimizar a exposição de erros, vou logo ao desfile. Mas antes dois questionamentos: Como que a escola não apresenta comissão de frente? E onde foi parar o Mestre Reginaldo, comandante da bateria da Barreiros e que acabou não desfilando?
Apesar do reduzido número de componentes e de sua fraca apresentação plástica, os componentes da agremiação desfilaram com alegria e honraram o nome da escola, uma das mais importantes de nosso carnaval. Como já havia dito, a Barreiros não apresentou sua comissão de frente e aliado aos inúmeros erros de seu desfile deve ser a rebaixada para o Grupo de Acesso.
A frente da escola se apresentou Gizeli Simon, que tentou transmitir toda a alegria dos componentes, apesar dos graves problemas. Gostei muito da apresentação do primeiro casal, mas foi uma surpresa ver que a escola trocou de mestre sala, já que no ensaio técnico o primeiro casal era Laís e Edgar.
O grande destaque vai para a apresentação da bateria, mesmo sem a presença do Mestre Reginaldo. Uma exibição empolgante e correta. Também parabenizo a boa atuação do carro de som da agremiação, mesmo com um samba tecnicamente irregular (mas funcional). Também ressalto a bela ala de baianas da escola.
A agremiação não apresentou todas as alas que constavam em seu cronograma, e plasticamente foi um desfile muito fraco. Vários problemas de acabamento, concepção, alas incompletas e apesar do ótimo enredo, a escola não o desenvolveu. Para se ter ideia, o último carro foi ser finalizado no tempo limite de entrar na avenida. Um despreparo total.
Unidos de Jucutuquara
Enredo: Vitória
A Unidos de Jucutuquara apresentou um desfile técnico e grandioso, e facilmente se credenciou para brigar pelo título do carnaval capixaba 2016.
Apesar de apresentar problemas para concluir seu desfile no tempo regulamentar (a escola precisou correr), a Jucutuquara apresentou um belo trabalho plástico, com um bom conjunto de alegorias e fantasias originais e criativas (achei o máximo a fantasia da ala de baianas). Só acho que o enredo poderia ser melhor explorado, uma vez que ele exalta as belezas da capital e não deveria apresentar uma alegoria sobre o incêndio do Mercado da Vila Rubim (apesar de entender sua representatividade). Fora outras importantes citações do enredo (e no samba), que sinceramente não foram bem apresentadas no desfile. Chamo atenção para o luxo dos destaques da escola, tanto dos que vieram nas alegorias, quanto os que vieram no chão.
O primeiro casal se apresentou com uma bela fantasia e realizou uma boa apresentação. Assim como a comissão de frente, que conseguiu contextualizar o enredo com qualidade, apresentando uma coreografia de ótima concepção, mas com alguns erros de sincronismo e em sua indumentária.
A bateria realizou uma excelente apresentação, assim como o carro de som. Onde destaco a exuberante atuação do interprete oficial Kleber Simpatia na condução do ótimo samba (o melhor do ano, pura poesia).
Pega no Samba
Enredo: Pega canta o centenário de um beija-Flor. Augusto Ruschi, orgulho capixaba, tesouro nacional
A Pega no Samba poderia até sonhar com uma ótima colocação, mas o atraso de sua comissão de frente, que não se apresentou na primeira cabine de julgadores, foi um “balde de água fria” nas pretensões da agremiação. Cito que somente após 28 minutos de desfile que os integrantes da comissão chegaram ao Sambão do Povo, e só se apresentaram nas duas últimas cabines julgadoras. Para mim foi uma grande decepção, já que pelo que tinha visto no ensaio técnico, a considerava uma das melhores do ano.
Gostei muito da plástica do desfile e também da forma que o enredo foi trabalhado. A escola se apresentou organizada, com criativas fantasias e um lindo abre-alas. Apesar do pequeno porte das alegorias, elas apresentavam ótima concepção e acabamento (apesar de possuir sérias restrições quanto a sua efetivação). Méritos também para a fantasia da ala de baianas.
O grande destaque vai para a apresentação da bateria do Mestre Jorginho, a melhor da noite. E também a excelente atuação de Bruno Ribas na condução do samba da escola, que realmente funcionou na avenida. O primeiro casal da escola Kleyson e Tainá, realizaram uma apresentação superior ao do ensaio técnico e devem conseguir excelentes notas.
Mocidade Unida da Glória
Enredo: Papo de Botequim
A Mug apresentou um desfile grandioso, luxuoso e plasticamente superior a qualquer escola da noite. Uma atuação impecável e que a torna grande favorita ao título do Grupo Especial do carnaval de Vitória.
A comissão de frente realizou uma ótima apresentação e o abre-alas gigantesco, apesar de concepção simples, utilizou seus integrantes para interagir com o público. Gostei demais do conjunto alegórico da Mug, com destaque para a as alegorias do baralho (terceira) e da prisão (quarta), muito bem idealizas. Elogios que estendo para as fantasias. Ora criativas, ora luxuosas. O melhor conjunto apresentado no Grupo Especial.
O primeiro casal realizou uma competente apresentação, mas tenho ressalvas em relação a saia da porta-bandeira, que ou estava quebrada ou foi mal projetada.
A bateria do Mestre Junior deu um verdadeiro show e empolgou o Sambão do povo, assim como o samba. Méritos para o carro de som da agremiação.
Unidos da Piedade
Enredo: Vamos ao mercado?
A Unidos da Piedade, que antes do desfile oficial era apontada como uma das favoritas ao título, apesar de apresentar um grande carnaval, só deve brigar pelo vice-campeonato.
O grande mérito da Piedade foi a apresentação do seu enredo, que conseguiu ser muito bem desenvolvido em suas alas e alegorias.
A comissão de frente realizou uma grande apresentação, e que exemplificava com clareza o ótimo enredo. O primeiro casal realizou uma encantadora apresentação ao primeiro módulo de julgadores.
Plasticamente a Piedade realizou um desfile com “altos e baixos”, enquanto algumas alas de destacavam pelo luxo e criatividade, outras exibiam problemas de acabamento e falta de uniformidade.
A escola apresentou um imponente conjunto de alegorias, com destaque para belíssimo abre-alas. O carro que representava o incêndio da Vila Rubim também foi um dos destaques.
A bateria realizou uma grande apresentação, mas faltou a vibração demonstrada no ensaio técnico. O samba, que sinceramente não gosto, chegou a funcionar no início do desfile, mas depois acabou caindo de rendimento, só sendo cantado durante o refrão principal.
Boa Vista
Enredo: Festas e Folguedos
O desfile da Boa Vista, uma das prováveis favoritas ao título, foi marcado pela irregularidade. O “chão da escola” estava belíssimo, com ótimas fantasias, mas as alegorias apresentavam “gritantes” problemas de acabamento (e também concepção). O grande demérito do desfile foi o início da escola. Apesar de uma excelente comissão de frente, a escola trouxe uma águia (símbolo da escola) repleta de problemas em seu acabamento e o mais grave, o elemento alegórico da comissão de frente estava literalmente “destroçado”. Mas ainda assim, a Boa Vista foi uma das escolas que mais empolgou o Sambão do Povo, e deve brigar por uma boa colocação (mas bem distante da disputa pelo título).
A apresentação do primeiro casal Diego e Vanessa foi irretocável, assim como sua deslumbrante fantasia, em resumo, a melhor apresentação do carnaval capixaba 2016.
Para afirmar ainda mais a qualidade das fantasias da agremiação, as baianas da Boa Vista foram as mais belas na noite. Destaco também a ótima apresentação do seu enredo, muito bem trabalhado nas alegorias e fantasias.
A bateria da Boa Vista realizou uma grande apresentação, assim como o samba, que apesar de irregular, foi cantado a “plenos pulmões” e muito bem executado pelo carro de som da agremiação.
A Boa Vista realizou um desfile técnico, plasticamente irregular, mas com a incomparável garra de seus componentes. E deixo uma pergunta, carnavalesco Petterson Alves desfilou?
Os Melhores do Grupo Especial
• Melhor Escola: Mocidade Unida da Glória.
• Melhor Comissão de Frente: MUG e Boa Vista.
• Melhor Mestre Sala e Porta Bandeira: Boa Vista.
• Melhor Samba: Jucutuquara.
• Melhor Enredo: Piedade e Pega no Samba.
• Melhor Bateria: Pega no Samba e MUG.
• Melhor Alegoria: MUG.
• Melhor fantasia: MUG e Boa Vista.
• Melhor ala de baianas: Barreiros e Boa Vista.
Gustavo Fernando.
* O Colunista Gustavo Fernando é Jornalista, Crítico de cinema, Compositor de Samba e Pesquisador de Carnaval.
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