O desfile das escolas de samba como transformador social

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Quem pensa que uma escola de samba se resume a aproximadamente 80 minutos de desfile está muito enganado. As agremiações trabalham durante todo o ano, e a preparação é longa. Além das muitas etapas para pôr um carnaval na avenida, que envolve a escolha do tema, a composição e definição do samba de enredo, a captação de recursos, a confecção plástica, entre outros. Elas também desfilam cidadania junto às comunidades que estão inseridas.

Oficinas e projetos sociais fazem parte do cotidiano de uma agremiação. Inclusive com parcerias com os poderes municipal, estadual e federal. E os cursos são variados, para adultos e crianças. Alguns servindo de complemento educacional, outros voltados para inclusão profissional.

Corte e costura, artesanato, escultura, aula de percussão, dança e esporte. As escolas de samba se inserem como transformadoras sociais nestas várias vertentes. O motivo? Além da função social de uma agremiação, os presidentes das escolas de samba, e especialistas em carnaval, são taxativos. Não há escola de samba sem a participação da comunidade.

“Não tenho dúvidas que o carnaval não é só um grande espetáculo cultural, as escolas de samba também geram empregos, movimentam a economia, atraem turistas e hoje, são uma vitrine para o Brasil e para o Espírito Santo. Nesse sentido, realizamos um investimento da cidade na própria cidade”, afirma o presidente da Mocidade Unidade da Glória, Robertinho.

Robertinho ainda alega que, mesmo com um orçamento reduzido em 2017, em razão da crise econômica e da falta de apoio dos poderes públicos, a MUG continua capacitando e incluindo socialmente a comunidade. Localizada em Vila Velha, a agremiação possui uma parceria com a escola Naydes Brandão, através de convênio com o Ministério da Educação e a Prefeitura do município.

“Nosso projeto social, que funciona de segunda a sexta, nos três turnos, atinge duzentas crianças. A nossa maior intenção é promover cidadania e auxiliar na formação das crianças da comunidade. Além disso, temos escolinha de dança e percussão, inserindo os jovens na escola de samba”, ressalta Robertinho.

O Enredo

Mas o papel cultural de uma agremiação não está somente em projetos sociais. Outra importante arma é o enredo. Isto é, o tema escolhido para ser desenvolvido ao longo do desfile.

E o enredo é a base de todo o desfile de uma escola de samba. A partir do tema, o samba, as fantasias, os carros alegóricos são idealizados e confeccionados. E, dessa forma, a mensagem escolhida vai sendo trabalhada junto a comunidade, e a sociedade.

Temas sociais e cidadãos são recorrentemente escolhidos pelas agremiações para abrilhantarem o desfile. Histórico, patrocinado, subjetivo ou uma homenagem. Seja qual for o modelo escolhido pela agremiação, é através dele que o público terá acesso a histórias surpreendes e marcantes. Tudo isso, de forma lúdica, aprofundada e musicada.

Carnaval e Cidadania

E não faltam exemplos de temas na história do Carnaval Carioca, e também do Capixaba, que apresentam e discutem temas de grande importância social e cidadã. Um dos exemplos mais notórios é o enredo “E Verás Que Um Filho Teu Não Foge À Luta”, do Império Serrano, em 1996. Através de uma homenagem ao sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, a escola apresentou um desfile-protesto, misturando artistas, comunidade e militantes de diversos movimentos políticos.

Na época do desfile, Betinho, que faleceria um ano após a homenagem, era o coordenador da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida. O enredo criticava a desigualdade social, a fome, o desperdício, o individualismo e a divisão fundiária do Brasil. Nele, Betinho é comparado a Dom Quixote, personagem do espanhol Miguel de Cervantes que passou a simbolizar o guerreiro romântico e sonhador.

“Quero ter a minha terra, ô ô ô Meu pedacinho de chão, meu quinhão/ Isso nunca foi segredo/ Quem é pobre tá com fome/ Quem é rico tá com medo”

Outro desfile antológico foi desenvolvido pela Beija-Flor, em 1989. Com o tema “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”, a escola de samba hipnotizou os milhares de foliões que lotavam a Sapucaí com uma invasão de mendigos. O carnaval, que foi desenvolvido por Joãosinho Trinta, ia totalmente contra uma frase célebre do sambista: “quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta é de luxo”.

Com o tema, a escola de samba e o carnavalesco chamavam atenção para indivíduos à margem da sociedade. Naquele ano, os pobres, desvalidos, marginalizados e maltrapilhos, eram as grandes estrelas do carnaval.

“quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta é de luxo”.

A marca daquele desfile foi a imagem de um Cristo Mendigo totalmente coberto. A ideia inicial do carnavalesco havia sido proibida pela justiça do Rio, e, dessa forma, o carro abre-alas, e a polêmica imagem, teve que atravessar o Sambódromo totalmente coberto.

Mas em um momento transgressor, componentes da escola arrancaram o plástico preto da escultura e a faixa gigante, que gritava “Mesmo proibido, olhai por nós”, para escrever a história em plena pista.

“Sai do lixo a pobreza/ Euforia que consome/ Se ficar o rato pega / Se cair urubu come”

Reconhecida por seus enredos críticos e satíricos, a Caprichosos de Pilares, em 1987, abordou a questão política e social vivida pelo país naquele ano. Assustadoramente, 30 anos depois, a temática se mantém atual.

Para 1987 a agremiação de Pilares resolveu falar de política. “Eu Prometo” seria o tema, buscando expressar concomitantemente a esperança dos brasileiros com a redemocratizaçã, e ironizando as eternas promessas de dos candidatos. Dessa forma, a escola pretendia alertar e criticar a Assembleia Constituinte que estava prestes a se iniciar naquele momento.

“Ajoelhou, tem que rezar/ Não quero mais viver de ilusão/ Você prometeu/ Agora vai ter que pagar/ Não vai me deixar na mão”
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